O TRIBUNAL DOS ASTROS
Driven Celestius e os Três Interrogadores do Tempo
Ficção científica filosófica • Mistério histórico • Drama • Astrologia clássica
PRÓLOGO — O HOMEM QUE QUERIA SER CONTRADITO
Noite.
Uma biblioteca antiga.
Driven Celestius está sozinho diante de uma mesa.
Não há velas, cristais ou elementos de fantasia ocultista.
Há livros.
Mapas.
Efemérides.
Instrumentos astronômicos.
Um astrolábio.
E, no centro, uma carta horária.
Driven observa o mapa durante muito tempo.
Ele não parece estar procurando uma resposta.
Parece estar procurando uma falha.
Seu olhar percorre os significadores.
As casas.
As dignidades.
Os aspectos.
A Lua.
Ele pega um lápis.
Escreve no papel:
"Onde está o erro?"
Apaga.
Escreve:
"O que estou deixando de perguntar?"
Apaga novamente.
Driven abre um manuscrito antigo.
Entre páginas deterioradas encontra uma frase:
"Aquele que quiser conhecer o julgamento dos astros deverá primeiro submeter o julgador ao julgamento."
Driven franze a testa.
Vira a página.
Não há mais texto.
Apenas um desenho:
Um círculo.
Doze divisões.
Sete símbolos planetários.
E uma inscrição:
ΠΑΝΤΑ ῬΕΙ
TUDO FLUI.
Driven percebe algo impossível.
A posição dos astros desenhada no manuscrito corresponde exatamente ao céu do momento em que ele está lendo.
Ele olha para o relógio.
O ponteiro para.
O som desaparece.
Driven toca o círculo.
CORTE.
ATO I — SÓCRATES
Driven acorda deitado sobre uma rua de pedra.
Levanta-se.
Ao redor dele:
Atenas.
Não uma reconstrução moderna.
Atenas viva.
Mercadores.
Filósofos.
Animais.
Cidadãos discutindo.
O som das sandálias contra a pedra.
O calor.
A poeira.
O mar ao longe.
Driven caminha entre a multidão.
Até ouvir:
— Você parece perdido.
Ele se vira.
Sócrates.
O filósofo observa Driven de cima a baixo.
Driven:
— Estou procurando você.
Sócrates sorri.
— Isso significa que você já começou errado.
Driven:
— Por quê?
Sócrates:
— Porque quem procura alguém deveria primeiro saber por que o procura.
Driven percebe.
O interrogatório começou.
A PRIMEIRA CONVERSA
Os dois caminham pela cidade.
Driven explica que veio de um futuro distante.
Sócrates obviamente não acredita.
Mas não discute.
Apenas pergunta:
— E o que você faz nesse futuro?
Driven:
— Sou astrólogo.
Sócrates para.
— Astrólogo?
— Sim.
— Então você observa os astros?
— Sim.
— E compreende o que eles dizem?
Driven:
— Procuro interpretar suas relações com os acontecimentos.
Sócrates:
— Os astros falam?
Driven:
— Não literalmente.
— Então quem fala?
Driven hesita.
— O mapa.
Sócrates:
— O mapa fala?
Driven percebe a armadilha.
— O intérprete julga o mapa.
Sócrates sorri.
— Então talvez seu problema não esteja no céu.
Pausa.
— Talvez esteja no homem que olha para ele.
Driven olha para Sócrates.
Pela primeira vez, aquela frase o incomoda.
O PRIMEIRO DESAFIO
Driven apresenta a astrologia horária.
Uma pergunta.
Um momento.
Uma carta.
Significadores.
Relações.
Lua.
Julgamento.
Sócrates pergunta:
— Como você sabe que sua interpretação não é apenas aquilo que deseja encontrar?
Driven:
— Por isso utilizo critérios.
— Quais?
Driven explica:
Intenção.
Radicalidade.
Agentes.
Relações.
Sócrates escuta atentamente.
— Então antes de responder à pergunta você examina se a própria pergunta pode ser julgada?
— Exatamente.
Sócrates fica sério.
— Isso é interessante.
Pausa.
Então pergunta:
— Mas quem julga o julgador?
Driven não consegue responder.
ATO II — PLATÃO
Driven retorna ao manuscrito.
Descobre que a anomalia temporal não permite apenas viajar para o passado.
Ela permite encontrar momentos intelectualmente decisivos.
Driven escolhe outro ponto.
Platão.
Ele encontra o filósofo ensinando.
Platão observa o estrangeiro.
Driven apresenta a astrologia horária.
Platão não pergunta se funciona.
Ele pergunta:
— O que é uma relação?
Driven explica.
Platão:
— Quando você diz que Marte está relacionado a determinada questão, a relação existe no planeta ou existe na interpretação?
Driven:
— Existe uma estrutura entre os elementos do mapa.
Platão:
— Uma estrutura que você vê?
— Sim.
— Então aquilo que você vê é a realidade ou a representação dela?
Driven permanece em silêncio.
Platão continua:
— Se o céu é um signo, precisamos saber daquilo de que ele é signo.
PLATÃO ENCONTRA O MAPA
Driven apresenta uma carta horária.
Platão observa os significadores.
— Você chama isto de casa.
— Sim.
— E isto?
— Significador.
— E isto?
— Relação.
Platão começa a organizar os elementos.
Não como um astrólogo.
Como um filósofo.
Ele percebe que Driven não está simplesmente interpretando símbolos.
Está trabalhando com uma arquitetura relacional.
Platão pergunta:
— Você percebe que está tentando transformar uma tradição interpretativa em uma linguagem?
Driven:
— Talvez.
Platão:
— Não diga "talvez".
Ele encara Driven.
— Descubra.
ATO III — ARISTÓTELES
Driven encontra Aristóteles.
A conversa é diferente.
Muito diferente.
Aristóteles não se interessa inicialmente pela história de Driven.
Quer ver o método.
Driven coloca o mapa sobre a mesa.
Aristóteles começa:
— Qual é o objeto?
Driven:
— A questão apresentada pelo consulente.
— Qual é a forma?
— A configuração celeste.
— Quais são os agentes?
Driven explica.
— Qual é a relação?
Driven explica.
— Qual é o estado?
Driven explica.
Aristóteles olha para ele.
— E o evento?
Driven:
— É aquilo que buscamos julgar.
Aristóteles:
— Então você possui uma estrutura.
Driven percebe.
Aristóteles não está perguntando se acredita na astrologia.
Está verificando se o método possui coerência interna.
A GRANDE PERGUNTA DE ARISTÓTELES
Aristóteles aponta para a Lua.
— E esta?
Driven:
— A Lua acompanha o desenvolvimento temporal da questão.
— Por quê?
Driven explica sua função como indicador temporal.
Aristóteles:
— Então você não está dizendo que a Lua é a emoção do consulente?
— Não.
— Está dizendo que ela participa da estrutura temporal do julgamento?
— Exatamente.
Aristóteles permanece pensativo.
Então pergunta:
— E como você distingue uma relação necessária de uma relação apenas observada?
Driven percebe que chegou ao ponto mais perigoso.
Porque aquela pergunta toca a fronteira entre:
tradição → observação → inferência → explicação.
ATO IV — O TRIBUNAL
Driven finalmente entende o propósito do manuscrito.
Ele não foi enviado ao passado para aprender com os filósofos.
Foi enviado para colocá-los juntos.
Ele retorna ao seu laboratório.
A máquina temporal é ativada.
Primeiro:
Sócrates.
Depois:
Platão.
Finalmente:
Aristóteles.
Os três aparecem na mesma sala.
Sócrates olha ao redor.
Platão observa o mecanismo.
Aristóteles imediatamente procura compreender como funciona.
Driven coloca uma carta horária sobre a mesa.
Os três se aproximam.
Driven:
— Senhores, não trouxe vocês aqui para provar que a astrologia funciona.
Sócrates:
— Excelente.
Platão:
— Continue.
Aristóteles:
— Apresente o método.
Driven:
— Quero saber se uma tradição interpretativa pode tornar explícitas as próprias regras de julgamento.
Silêncio.
Driven coloca seu protocolo sobre a mesa:
I.R.A.R. → E.L.E.S.
I — INTENÇÃO
R — RADICALIDADE
A — AGENTES
R — RELAÇÕES
↓
E — EVENTO
L — LUA
E — ESTADO
S — SÍNTESE
O TRIBUNAL COMEÇA
SÓCRATES — O INTERROGADOR
Sócrates aponta para a primeira etapa.
— Por que essa pergunta foi feita?
Driven explica.
— E se o consulente estiver mentindo?
Driven responde.
— E se estiver mentindo para si mesmo?
Driven fica em silêncio.
Sócrates:
— Então sua primeira variável não é o céu.
Pausa.
— É o homem.
Driven olha para:
INTENÇÃO.
PLATÃO — O METAFÍSICO
Platão aponta para o mapa.
— Você chama essas relações de significativas.
— Sim.
— O que torna uma relação significativa?
Driven explica a estrutura simbólica.
Platão:
— Então você procura uma ordem inteligível dentro de uma configuração sensível.
Driven:
— Sim.
Platão aponta para o mapa.
— Então talvez sua verdadeira questão não seja o planeta.
Pausa.
— É a ordem.
Driven olha para:
RELAÇÕES.
ARISTÓTELES — O ANALISTA
Aristóteles examina tudo.
— E como você verifica se o julgamento foi correto?
Driven:
— Comparando o julgamento com o desenvolvimento do evento.
Aristóteles:
— Então você possui uma consequência observável.
Driven:
— Sim.
Aristóteles:
— Então registre.
— Compare.
— Corrija.
Pausa.
— Não transforme tradição em dogma.
Driven olha para:
RADICALIDADE. EVENTO. ESTADO. SÍNTESE.
A FRASE QUE MUDA O FILME
Sócrates olha para Aristóteles.
— Você acredita nele?
Aristóteles:
— Não importa.
Sócrates:
— Não importa?
Aristóteles:
— Ainda não sabemos o suficiente.
Platão intervém:
— Então devemos investigar.
Sócrates olha para Driven.
— E você?
Driven responde:
— Eu também.
Sócrates sorri.
— Então finalmente temos um começo.
A REVELAÇÃO
Driven finalmente confessa:
— Eu não vim ao passado para descobrir se a astrologia é verdadeira.
Os três olham para ele.
— Vim descobrir se sou capaz de praticá-la sem transformar minhas próprias crenças em respostas.
Silêncio.
Driven continua:
— Quero saber se consigo olhar para uma carta sem obrigá-la a dizer aquilo que já acredito.
Sócrates o observa.
Platão abaixa os olhos.
Aristóteles toca o mapa.
Então Aristóteles pergunta:
— E se o mapa contrariar você?
Driven:
— Então preciso aprender a aceitar o mapa antes de tentar explicá-lo.
Sócrates sorri.
Platão olha para o céu.
Aristóteles responde:
— Agora você está começando a entender o que é um método.
O COLAPSO TEMPORAL
Então o céu começa a aparecer dentro da sala.
As paredes desaparecem.
Milhares de estrelas.
Mapas.
Constelações.
Cartas horárias.
Fragmentos de manuscritos.
Todos os tempos começam a coexistir.
Aristóteles:
— Qual é a causa?
Platão:
— Talvez aquilo que vemos seja apenas aparência.
Sócrates:
— E talvez nenhum de nós saiba.
Driven olha para os três.
E entende.
A viagem temporal não estava levando os filósofos para o futuro.
Estava levando Driven para dentro da própria história do pensamento.
O céu inteiro se transforma em uma imensa carta.
Driven vê:
INTENÇÃO.
RADICALIDADE.
AGENTES.
RELAÇÕES.
Depois:
EVENTO.
LUA.
ESTADO.
SÍNTESE.
As palavras desaparecem.
Resta apenas o céu.
Driven fecha os olhos.
O RETORNO
Driven consegue devolver Sócrates à Atenas do século V a.C.
Antes de desaparecer, Sócrates diz:
— Driven Celestius.
Driven:
— Sim?
— Não confie demais nas respostas que encontrou.
Pausa.
— Confie mais nas perguntas que ainda consegue fazer.
Sócrates desaparece.
Platão é o próximo.
Antes de partir:
— Continue procurando aquilo que permanece quando as aparências mudam.
Driven:
— E se eu não encontrar?
Platão:
— Então terá descoberto algo sobre a própria busca.
Desaparece.
Aristóteles permanece por último.
Ele olha para o protocolo.
Depois para Driven.
— Você construiu um método.
Driven:
— Tentei.
Aristóteles:
— Então agora faça aquilo que todo método deve permitir.
Driven:
— O quê?
Aristóteles:
— Que outro homem possa examiná-lo.
Ele desaparece.
A sala fica vazia.
Driven olha para a carta.
O manuscrito começa a se desfazer.
Ele tenta segurá-lo.
Não consegue.
O papel vira pó.
Driven fecha os olhos.
EPÍLOGO — O DESPERTAR
CORTE BRUSCO.
Driven acorda.
Está em sua cama.
Respira profundamente.
Olha para o teto.
Silêncio.
A luz da manhã atravessa a janela.
Ele se senta.
Durante alguns segundos parece confuso.
Olha para as próprias mãos.
Depois para a mesa ao lado da cama.
Não há manuscrito.
Não há máquina temporal.
Não há astrolábio.
Nada.
Driven passa a mão pelo rosto.
Então percebe algo.
A carta horária.
Ela está sobre sua mesa de trabalho.
A mesma carta do início.
Driven se levanta.
Vai até ela.
Observa.
Mas desta vez não começa pelas dignidades.
Não começa pelos aspectos.
Não começa procurando uma resposta.
Ele fecha os olhos.
E lembra de Sócrates:
"Por que essa pergunta foi feita?"
Abre os olhos.
INTENÇÃO.
Depois lembra de Platão:
"O que torna uma relação significativa?"
Ele observa a estrutura inteira.
RELAÇÕES.
Depois Aristóteles:
"Como você distingue uma relação necessária de uma relação apenas observada?"
Driven pega um caderno.
Escreve:
OBSERVAR ANTES DE CONCLUIR.
Abaixo:
JULGAR SEM FORÇAR.
Depois:
REGISTRAR O QUE FOI JULGADO.
E finalmente:
COMPARAR O JULGAMENTO COM O EVENTO.
Driven para.
Olha novamente para o mapa.
Agora ele compreende.
A astrologia horária não precisa começar pela pergunta:
"O que este mapa diz?"
Antes disso, precisa perguntar:
"O que exatamente estou investigando?"
E depois:
"O que no mapa me autoriza a dizer isso?"
E finalmente:
"O que aconteceu depois?"
Driven percebe que sua maior descoberta não foi uma nova técnica de interpretação.
Foi uma nova disciplina do olhar.
Ele começa novamente.
I — INTENÇÃO.
Identifica a questão.
R — RADICALIDADE.
Verifica se há coerência suficiente para julgar.
A — AGENTES.
Define quem e o quê participa da questão.
R — RELAÇÕES.
Examina as conexões antes de formar uma narrativa.
Então passa para:
E — EVENTO.
O que está realmente sendo perguntado?
L — LUA.
Qual é a dinâmica temporal?
E — ESTADO.
Qual é a condição concreta dos agentes?
S — SÍNTESE.
Somente agora o julgamento.
Driven recosta-se na cadeira.
Pela primeira vez, sorri.
Não porque descobriu uma maneira de fazer a astrologia parecer mais científica.
Mas porque descobriu uma maneira de ser mais rigoroso como astrólogo.
Ele olha para o céu pela janela.
A câmera acompanha seu olhar.
O mesmo céu.
Os mesmos planetas.
A mesma Lua.
Nada mudou no firmamento.
Mas tudo mudou no observador.
Driven murmura:
— O céu não mudou.
Pausa.
— Eu é que finalmente aprendi a olhar.
ÚLTIMA SEQUÊNCIA
Driven fecha o caderno.
Na primeira página, escreve:
ASTROLOGIA TOTAL
I.R.A.R. → E.L.E.S.
Abaixo, uma nova frase:
"Nenhum julgamento deve ser maior que as relações que o sustentam."
Ele fecha o caderno.
A câmera se afasta lentamente.
Driven permanece diante da carta horária.
O céu ocupa toda a janela.
Por um instante, vemos três reflexos sobre o vidro:
Sócrates.
Platão.
Aristóteles.
Driven percebe os reflexos.
Vira-se.
Não há ninguém.
Ele sorri.
CORTE PARA PRETO.
Surge lentamente:
DRIVEN CELESTIUS
O TRIBUNAL DOS ASTROS
Uma viagem através do tempo para descobrir como olhar.
E então a última frase:
"Toda resposta digna desse nome deve sobreviver à pergunta que tenta destruí-la."
FIM.